Poucas coisas são tão significativas na morte de Ayrton Senna quanto a data do acidente fatal. Quando deixou as pistas para a memória dos amantes do automobilismo, Ayrton liderava os pilotos em um movimento pró-segurança na Fórmula-1. Visivelmente assustado com o acidente de Rubens Barrichello na sexta-feira e chocado com a morte de Roland Ratzemberger, Senna considerou por mais de uma vez a possibilidade de não correr. Chegou a receber a visita de Frank Williams na véspera da corrida em Ímola. Foi uma longa conversa no quarto do brasileiro, que tranquilizou o patrão quanto a uma possível desistência.
Senna entrou no cockpit do Williams nº2 pressionado. Havia feito a terceira pole position em três corridas, mas não pontuara em nenhuma das duas anteriores - no Brasil, rodou; no Japão, foi tocado por Mika Hakkinen na primeira curva. O Williams era um carro nervoso, nas palavras do próprio Ayrton. Sem o controle de tração e a suspensão ativa do ano anterior, o carro tinha sérias dificuldades com as pistas irregulares, como Interlagos e Ímola.
Na volta número 6, a única em que faz com velocidade de corrida - já que o carro de segurança estivera na pista nas cinco primeiras - é possível ver uma fagulha sair do assoalho do carro de Senna assim que contorna a Tamburello. A prova de que o solo de seu Williams tocava a pista irregular em um ponto crítico do circuito, uma curva feita a mais de 300 km/h, indicava que o pior poderia acontecer.
Na volta seguinte, o que a imagem do cockpit de Schumacher não mostra - e a telemetria viria a revelar - é que um novo toque tira Ayrton do traçado. Ele se vê obrigado a corrigir a saída de traseira do carro e só tem tempo para três coisas: acionar o freio e virar o volante para a esquerda antes de levar as mãos instintivamente ao rosto e ser atingido pela suspensão dianteira direita do Williams a aproximadamente 220 km/h.
Foi o último acidente fatal na Fórmula-1. Quando Senna morreu, a categoria estava há 9 anos "intacta". Era o recorde nos então 44 anos de história da categoria, o que motivou a revista Veja a investigar o que era responsável por tanto tempo de bonança numa categoria perigosa por essência. A revista foi às bancas no domingo, dia 1º de maio de 1994. Justamente o dia em que o Brasil perdeu um de seus maiores cidadãos e o mundo o piloto mais arrojado que já conheceu.
Três dias depois, o corpo de Senna passava pelas ruas de São Paulo num desfile que parou o país. O maior luto já vivido por uma nação de 509 anos, superando a morte de estadistas como Getúlio Vargas e Tancredo Neves. A dor desses 15 anos não se mede em palavras. Por isso, honestamente não me arrisco a dizer do vazio que Senna deixou no coração de cada brasileiro.
Prefiro ficar com a imagem do trabalhador exemplar. O piloto ousado, veloz e talentoso. Fora de série sim, mas acima de tudo incansável. Desde que foi contratado pela McLaren em 1988 até sua saída em 1993, Ayrton tinha o hábito de virar dias a fio com os engenheiros da Honda. Por isso, conquistou a adoração dos japoneses. E, ironia do destino, foi de lá que trouxe seus três troféus mais importantes - um deles simbólico, já que não completou a prova em 1990, quando bateu propositalmente em Alain Prost na primeira curva.
Se tivesse vivido mais, o que teria sido Ayrton? Tetra? Penta? A essa altura, tenho a impressão de que números são um detalhe em meio a imagens inesquecíveis proporcionadas por Senna. Como o segundo lugar com a Toleman em Monte Carlo-84, a primeira vitória, de Lotus, em Estoril-85, as 6 em Mônaco, as duas no Brasil e a primeira volta mais fantástica da Fórmula-1, quando ultrapassou quatro pilotos para cruzar a primeira volta na liderança, em Donnington Park, 1993.
Senna nos deixou para que a Fórmula-1 ficasse mais segura. É uma relação causa-efeito bastante cruel, mas a irracionalidade de quem dirige a categoria máxima do automobilismo mundial não permitiu que o campeonato de 1994 parasse antes de Ayrton. Desde então, são 15 anos sem mortes. A reflexão nesse dia do trabalho, quando tantos brasileiros pegarão as estradas mais uma vez, é sobre direção e vida. Um legado que Senna deixou não apenas para quem anda a 300 km/h. Dirigir com prudência para si e para o outro é mais do que um favor prestado à boa convivência. É dever de cidadão. Papel que Ayrton soube encarnar como poucos.




